Entenda o que é trabalhabilidade e como essa tendência abre possibilidades em sua carreira

 

Seja qual for a profissão escolhida, sempre haverá uma diferença entre o mundo do trabalho e a época de formação e preparação para o trabalho. Ou seja, há uma distância entre os sonhos profissionais dos jovens e o que ocorre quando entram no mercado. Além de ser estranho aos olhos dos jovens, o mundo do trabalho não é mais o mesmo daquele que lhes descreveram os pais e professores.

Nas últimas duas décadas, graças à globalização e aos avanços da tecnologia, o mundo do trabalho entrou em uma fase de transição, no qual o emprego formal com carteira assinada está em extinção. Compare-se, por exemplo, a taxa de desemprego do Brasil em 1989 (3,3%) com a de 2015 (6,9%) – o desemprego dobrou. A situação fica ainda pior com a última taxa divulgada pelo IBGE, em abril de 2021: 14,4%, o que significa que 14,4 milhões de pessoas estão desempregadas atualmente no Brasil – o maior número até agora.

É certo que os níveis de desemprego revelam os efeitos da pandemia de coronavírus que atingiu o país, mas a queda do número de empregos é uma forte tendência para o futuro. Nossa geração não tem mais a garantia de um emprego. Empresas que foram sólidas por décadas estão tendo seu império ameaçado por novas tecnologias desenvolvidas por meia dúzia de profissionais.

Assim como gigantes morrem de um ano para outro, novas potências surgem nessa mesma velocidade. Cargos surgem e desaparecem entre o momento que alguém inicia e termina uma graduação. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apresentou uma projeção na qual 65% das crianças de hoje trabalharão em profissões que ainda não existem atualmente. A tecnologia está mudando todos os aspectos da nossa vida constantemente, e com o mundo do trabalho não é diferente. Isso tudo exige dos trabalhadores adaptações importantes.

 

O que é trabalhabilidade?

 

 

A ideia de trabalhabilidade foi desenvolvida na virada do milênio devido às perspectivas de mudanças protagonizadas pela transformação digital. Trabalhabilidade é a capacidade do trabalhador de desenvolver seu potencial para gerar trabalho e conseguir renda, sem precisar se adequar a algum cargo em uma empresa. Ou seja, o emprego é extinto, mas o trabalho permanece.

Nessa concepção, o indivíduo se torna o fornecedor de trabalho. Portanto, é o próprio indivíduo que se responsabiliza pela geração de renda a partir do desenvolvimento de habilidades e competências que possam se integrar com facilidade às novas possibilidades tecnológicas.

Cada vez mais não teremos garantia de emprego e teremos que ofertar nosso trabalho de outras maneiras. Dessa forma, garantir um trabalho virou uma tarefa mais tangível do que conseguir um emprego.

Mais do que um profissional qualificado em termos técnicos, estamos falando sobre o desenvolvimento de competências específicas, como criatividade, resiliência, pensamento crítico, inteligência emocional, cultura de aprendizado e capacidade de resolução de problemas complexos.

Neste contexto atual, quanto mais clareza o sujeito tiver sobre seus interesses e motivações pessoais, habilidades, capacidades e potencialidades, mais facilmente poderá tomar decisões ou direções de vida ou carreira. As pessoas entram no mercado de trabalho com muitas ambições, esperanças, ilusões e medos, mas com relativamente poucas informações válidas a seu próprio respeito.

É por isso que o profissional que investir no autoconhecimento e possuir postura ativa no seu desenvolvimento pessoal e de carreira sairá na frente. Além de se empenhar no reconhecimento de suas capacidades pessoais, o jovem que entra no mercado precisa conhecer melhor as possibilidades de sua profissão, para que possa reconhecer e aproveitar oportunidades que se tornam disponíveis.

 

Qual a diferença entre trabalhabilidade e empregabilidade?

 

 

A empregabilidade é um conceito que visa moldar profissionais para o mercado de trabalho, e pode ser descrito como o conjunto de capacidades e características pessoais que levam a pessoa a conseguir se empregar com mais facilidade do que outras. O termo surgiu a partir das ações das empresas que ofereciam capacitação para o quadro de funcionários. Era uma maneira de despertar o interesse do trabalhador em preparar-se para novas oportunidades e desafios dentro da área de trabalho de cada setor de atuação.

No século XX a empregabilidade descolou-se das ações organizacionais para definir o investimento que o próprio funcionário faz para se manter empregado, correndo atrás dos requisitos e qualificações exigidas pelo mercado e desenvolvendo diferenciais competitivos e marketing pessoal. Portanto, as pessoas procuravam manter um currículo atrativo para serem empregadas, buscando com isso estabilidade, segurança e retorno financeiro.

O conceito de trabalhabilidade vem se contrapor à empregabilidade, ou complementá-la, dependendo do ponto de vista. Isso porque a trabalhabilidade molda profissionais para a geração de trabalho e renda a partir da criatividade e da inovação, não estando associada à empregos formais. Se antes os estudantes de graduação e formandos construíam suas trajetórias em busca de se tornarem empregáveis, hoje só isso não basta. É preciso também compreender que o trabalho não passa apenas pela execução do combinado em um emprego, mas exige entrega, resultado, e deve agregar valor para a sociedade.

 

Características da trabalhabilidade

 

Vínculo com o trabalho, não com o emprego

 

 

O trabalho passa a ser realizado por profissionais sem emprego, que podem ser prestadores de serviços ou pequenos empresários. Os vínculos são temporários, por época, sazonalidade ou por contrato – o vínculo é com o trabalho, portanto. É o caso, por exemplo, dos arquitetos, que convivem há bastante tempo com a flexibilização do trabalho, bem como, mais recentemente, os profissionais de TI (tecnologia da informação) e do marketing digital.

Dessa forma, o trabalho autônomo se encaixa nos princípios da trabalhabilidade, o que significa tanto a possibilidade de trabalhar com o que gosta quanto o aumento da possibilidade de administrar e controlar melhor a própria carreira. O profissional autônomo estabelece os horários e locais de trabalho conforme suas necessidades, administra seu próprio ganho e decide onde irá empregar seus lucros. O IBGE estima que hoje, no Brasil, cerca de 40,6% das pessoas ocupadas sejam trabalhadores autônomos. Eles representam um forte alicerce da nossa economia.

O empreendedorismo é também uma forma de trabalho que ganha destaque com a trabalhabilidade, pois as pessoas estão mais e mais dispostas a investirem em novos negócios, especialmente considerando as possibilidades que as atuais e vindouras tecnologias vão nos proporcionar. O empreendedor gera trabalho não apenas para si, mas também para os outros.

 

Criatividade e inovação

A criatividade e inovação são competências fundamentais dos profissionais que oferecem soluções para demandas não atendidas e identificam nichos. Eles sabem como transformar preferências particulares em fonte de renda, que podem ser seu sustento principal ou uma renda complementar. É o caso de profissionais liberais como advogados, psicólogos e dentistas.

Por exemplo: um jornalista contratado pelo serviço público que tem interesse em educação e desenvolve como fonte de renda complementar um projeto online de redação para o vestibular. Ou um formando em Economia ou Administração que decide atuar com consultoria ou mentoria financeira e cria um canal no Youtube sobre educação financeira. Além de divulgar o trabalho, os próprios vídeos geram renda, pois conseguem ser monetizados devido aos anúncios veiculados na plataforma.

 

Agilidade, flexibilidade e adaptabilidade

 

 

Encarada como o futuro do mercado, a trabalhabilidade traz consigo características como agilidade e flexibilidade na maneira como se estabelecem as relações de trabalho.  Dessa fora, os trabalhos valorizados são desenvolvidos de forma colaborativa e estão alinhados com os valores do indivíduo. São os traços que vêm sendo apontados como características da chamada Geração Z, tais como adaptabilidade para desafios, interesse em aprender novas soluções para problemas novos ou mesmo antigos, e espírito colaborativo.

Um exemplo bastante caraterístico são as empresas startups, que abandonam o engessamento da estrutura organizacional em favor de um mindset que privilegia a identificação de demandas latentes e a solução dos problemas de forma colaborativa, tecnológica e criativa. A característica principal da trabalhabilidade é, nesse sentido, a capacidade de entender como as competências pessoais do indivíduo podem ser aprimoradas e transformadas em soluções que despertam o interesse do mercado.

 

A valorização do individual

Por meio da trabalhabilidade, as pessoas começaram a valorizar mais as suas próprias características, competências e identidades para propor soluções. As competências pessoais tornam-se ativos para despertar o interesse das empresas e também de um perfil de consumidor alinhado à mesma linha de pensamento.

O pilar central da trabalhabilidade é a capacidade de se adaptar para gerar renda a partir de habilidades pessoais. Assim, quem desenvolve essa caraterística transforma seus conhecimentos e hobbies em produção econômica. O trabalho executado não necessariamente terá relação com a principal área de formação. Você pode trabalhar na área da saúde e ter habilidades para vendas, por exemplo, criando um negócio online que vende roupas usadas. Ou você pode ser um engenheiro civil que tem talento na cozinha e faz bolos e sobremesas para vender na empresa em que trabalha.

Essa valorização estabelece rumos tão amplos quanto diversificados em novas profissões – como na de consultores, palestrantes, profissionais de tecnologia, artistas, profissionais da área de beleza, e outras carreiras que afloram no mercado de trabalho, como a de YouTubers e TikTokers.

 

Como desenvolver a trabalhabilidade?

Em uma época onde dinamismo é vital e a sustentação da carreira e do mercado de trabalho em longo prazo é pautada na tecnologia, investir na trabalhabilidade permite que você esteja mais preparado para lidar com as mudança do mercado. O desenvolvimento dessa capacidade permite não restringir as suas possibilidades aos postos de emprego disponíveis em um momento específico, criando novas oportunidades que estejam alinhadas aos seus próprios objetivos. Assim, você ganha autonomia e não fica preso a apenas uma fonte de renda.

 

Desenvolva o autoconhecimento

 

 

Você só vai ser capaz de perceber quais possibilidades tem diante de si se desenvolver o autoconhecimento. Por isso procurar um processo de orientação profissional com um psicólogo é importante. Seja orientação para a primeira escolha ou reescolha profissional, ou ainda planejamento ou transição de carreira, o trabalho de orientação profissional possui as ferramentas para aumentar seu autoconhecimento. O objetivo é permitir que você consiga identificar seus principais interesses, competências e habilidades e entender como eles podem ser desenvolvidos.

Além disso, agarrar as oportunidades disponíveis depende cada vez mais de ter saúde física e mental – cuidar do corpo, evitar vícios, manter bons relacionamentos e boa autoestima fazem com que o sujeito tenha capacidade de realizar projetos. Assim, ele conseguirá usar as suas potencialidades em benefício próprio e poderá colocar todo o talento pessoal a serviço do mercado. Por isso, não hesite em procurar uma psicoterapia ou psicanálise quando for preciso.

 

Invista em você

Ao deixar de ver apenas o emprego formal como opção de trabalho, você pode ampliar seus horizontes e investir mais em você. Isso significa se dedicar a cursos e atividades que estejam diretamente alinhados aos seus objetivos e não necessariamente às expectativas de uma empresa. Por isso, se você é muito bom em um hobby, desenvolva a ideia de transformá-lo em fonte de renda, mas não deixe de avaliar se isso está alinhado com suas metas de vida e carreira e de pesquisar as condições do mercado antes. Para saber mais sobre os pilares que norteiam as decisões de carreira dos indivíduos, leia nosso post sobre âncoras de carreira. Essas âncoras representam o conjunto de aptidões, valores e objetivos dos quais não se abre mão, ou seja, das motivações profissionais que baseiam as escolhas profissionais.

 

Gostou? Quer saber mais? Para descobrir quais são suas âncoras de carreira e qual é seu perfil de personalidade profissional, entre em contato com a gente! Conheça também os serviços de orientação profissional que oferecemos e como podemos te ajudar a escolher profissão e tomar decisões de vida e de carreira.

 

Tarsia Paula Piovesan Farias

CRP-12/17900

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